Uma Estranha Amiga

4 jan

Não sei se fui eu quem decidiu seguir na música. Acho que decidiram por mim.

Sim, porque a música estava em mim desde criança, é fato. Mas daí a decidir dedicar-se a uma carreira musical é outra coisa.

Eu trabalhava como garçom, há uns 11 anos, e a grana não sobrava nem para comprar uma palheta. Mas emprestava o violão do vizinho, e com ele fazia algumas composições.

Um dia, no meu trabalho, eu estava atendendo dois clientes: a dona Luzia e o seu Edson, marido dela. Então eu disse pra ela:

– Dona Luzia, minha mãe está vendendo lingerie. Se resolver comprar, fale comigo.

– Ah é? Então me passe o telefone dela.

Dona Luzia ia quase todos os dias onde eu trabalhava. Mas era a primeira vez que eu puxava um assunto diferente, mais pessoal. Ela tinha bom humor, e de vez em quando me dava gorjetas. Passei o número do telefone da minha mãe para ela e, no dia seguinte, soube que ela havia ligado, e elas se encontraram.

De noite, assim que eu comecei a trabalhar, dona Luzia me chamou e protestou:

– Por que você não me disse que cantava?

Eu fiquei um pouco confuso, mas logo entendi. As mães, quando reúnem-se, adoram falar das qualidades de seus filhos.

– A minha mãe andou falando de mim, é? – Perguntei, sorrindo.

– Ela disse que você canta desde criança e que escreve músicas também.

– É , eu tento né! – Concordei meio sem jeito.

– Pois neste sábado vou na sua casa ouvir você cantar.

– Ah, que legal! Será muito bem vinda.

– Então estamos combinados!

Dona Luzia era assim, pensava, combinava e ponto final. Fui entender melhor isso mais tarde.

No sábado daquela semana, ela e seu Edson foram até minha casa. Eu emprestei o violão do vizinho e mostrei algumas músicas para ela. Eles ouviram, depois ela conversou um pouco com minha mãe, que morava em uma casa ao lado da minha, e não me disse nada. Nem se as músicas eram bonitas ou feias. Ficou mais alguns minutos e foi embora. Eu lembro de ter dito para minha mãe: “Estranho, ela não falou nada das músicas. Acho que não gostou.”

No dia seguinte, no meu trabalho, dona Luzia e seu Edson entraram no estabelecimento e me chamaram.

– Tudo bem, Ronaldo? – Disse ela.

– Tudo, sim. E com a senhora?

Mas ela não me respondeu, e começou a falar.

– Ronaldo, eu não falei nada sobre as suas músicas ontem porque queria falar com meu marido primeiro, para saber se ele teve a mesma impressão que eu. – O seu Edson olhava fixamente para meus olhos. – Nós ouvimos suas músicas com atenção.

– Que bom, dona Luzia, gostaram? – Eu perguntei, já meio nervoso com a resposta.

– Sim. E mais, quero que você vá numa loja amanhã e escolha o violão que quiser que eu vou te dar de presente. Sua mãe disse que aquele violão não é seu.

Eu não acreditava no que estava ouvindo. Depois de muito agradecer, fui para a cozinha, me ajoelhei e chorei.

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O Dia da Quase Morte

21 dez

Aos quinze anos de idade, sofri um acidente e fiquei em coma durante 11 dias. Quando melhorei e saí do hospital, não lembrava de quase nada do meu passado. Lembro que entrei em um carro para ir para um lugar que não conhecia, com uma mulher que dizia ser minha mãe.

Assim que o carro começou a andar, a mulher perguntou:

– Lembra-se de quem foi te visitar, meu filho?

Fiz um esforço para tentar encontrar uma pista que parecesse com alguém me visitando, até que consegui.

– Sim. Lembro do tio Jonas. – falei, feliz por saber o nome e quem era.

– De quem, filho?!

– Do tio Jonas! Ele não entrou no quarto. Mas foi até a porta e estendeu os braços pra mim por um tempinho. Eu não sei porque, mas não lembro de termos conversado. Depois ele baixou os braços virou e começou a sair. Mas antes olhou novamente pra mim, fez um sinal de positivo e sorriu. Depois se foi.

Minha mãe ouviu e deu um forte suspiro.

– O que foi? Algum problema? – Perguntei.

– Seu tio Jonas está morto há sete anos.

Naquela hora fiquei ainda mais perdido. A única pessoa que eu lembrei ter ido me visitar já havia morrido. Mas sabia quem ele era. Era meu tio. Minha única pista de memória. Naquele instante, decidi que meu primeiro filho homem teria o seu nome.

Hoje, meu filho Jonas tem 11 anos.

E no dia em que ele nasceu eu estava vindo de São Paulo, onde fui chamado para compor uma música de nome Renascer.

A Primeira Lição na Rua

18 dez

Assim que comecei a vender jornal, lá pelos meus 12 anos, fui escalado para ficar na área central de Joinville. Chegava de madrugada, quando ainda era escuro.

Em um destes dias de inverno, na esquina das ruas 9 de Março com JK, quando o sol ainda não havia mostrado o rosto, um mendigo já velho, que estava embriagado, aproximou-se e disse que ia pegar um dos jornais para ele.

Não havia ninguém na rua. Eu estava com medo, mas disse que ele não poderia levar o jornal porque se ele levasse, eu teria que pagar. O homem enfezou sua expressão e começou a xingar-me em voz alta.

Eu olhava para os lados na esperança de que alguém aparecesse e me ajudasse a sair daquela situação. Mas ninguém aparecia. O mendigo chegou mais perto e eu não podia fazer nada. Ele estava entre os jornais e eu. Não eram poucos os exemplares, e não daria tempo de pegar todos os jornais e fugir.

Mas eu lembro que franzi a testa e ficava olhando diretamente para os olhos daquele homem, tentando não demonstrar medo. Em um destes momentos, eu desviei o olhar para certificar-me se não havia ninguém chegando. Mas, alguns segundos depois, eu estaria caído no chão.

O velho mendigo me deu um tapa tão forte no rosto que com o impacto eu acabei caindo.

Foi aí que tudo mudou. Mais do que rapidamente, sem ter tempo de pensar no que estava fazendo, eu levantei-me na frente do mendigo e cuspi com muita força no rosto dele.

 

O tempo que levou entre eu ter a consciência do que fiz e ele começar a falar, me trouxe ainda mais medo do que ele poderia fazer. E passando a mão no rosto barbudo para limpar-se ele me perguntou tão surpreso quanto eu:

– Por que você cuspiu em mim, menino?

– Por que você me bateu! – Respondi.

Então com o dedo em riste, bem na frente dos meus olhos, ele disse:

– Só por isso, tu não vai mais apanhar.

E ali aprendi minha primeira lição na rua, que me serve ainda hoje e servirá por toda a vida.

Toda ação provoca uma reação. A frase é clichê. Mas a aula foi inusitada.

A Importância da Escola

17 dez

Eu estava no segundo ano do ensino fundamental quando comecei a cantar em público.

Tenho que agradecer – e muito – minha professora na época. Ela se chamava Eliane. Na realidade,
tenho que agradecer toda a Escola Conselheiro Mafra, que depois acabou sendo minha maior
incentivadora a continuar cantando. E quero dizer toda a escola mesmo. Professores, direção,
alunos.

Enfim, a professora Eliane tinha uma mania que todos gostávamos. Toda sexta feira, ela
deixava os últimos 30 minutos de aula para que nós apresentássemos o que queríamos.

Nós líamos poesias, fazíamos teatro, contávamos piadas… Até que um dia, ela perguntou
novamente quem queria apresentar alguma coisa, e ninguém respondeu. Ela resolveu ajudar,
deu alguns exemplos do que poderia ser feito mas ninguém se expressava.

Lembro que meu coração começou a bater mais forte. “Ninguém vai fazer nada hoje então?”
Perguntou ela.

– Eu sei cantar.

– Então venha, Ronaldo!

Cantei uma música do Roupa Nova. Depois que acabei e meus Amigos batiam palmas, a
professora perguntou: Ronaldo, você não quer cantar na Homenagem de dia dos Pais? Você
canta bem!

Depois da Homenagem daquele ano, em todos os outros, enquanto estudei no Conselheiro, eu
cantava na homenagem de dia dos pais. Minha mãe chorava todo ano. Acho que isso foi outro
motivo de querer cantar. Dar orgulho a minha Mãe.

Obrigado escola Conselheiro Mafra. Obrigado professores e alunos daqueles anos. Obrigado
professora Eliane. Toda vez que canto, é por vocês também!

Meu primeiro cachê

16 dez

Aos 11 anos, comecei a vender jornais e engraxar sapatos para ajudar minha Mãe.

Na verdade, não precisava, pois minha Mãe sempre supriu nossas necessidades. Mas eu queria ajudá-la de alguma forma.

Talvez porque via o quanto ela trabalhava. Enfim, tornei-me rapidamente um bom vendedor de jornais. Desde criança, fui articulado.

Ainda me lembro do que eu chamo de meu primeiro cachê. Aos sábados, nós eramos levados de kombi para uma praia de uma cidade vizinha a Joinville. Em uma destas idas, paramos para fazer um lanche em um barzinho bem simples. Os meninos todos começaram a lanchar, mas eu não tinha dinheiro, então fiquei esperando na kombi e cantando baixinho. Um homem de dentro do bar me viu cantando e gritou: “Oh menino, vem cantar aqui. Se eu gostar te pago um lanche!” Como desde criança eu não perdia oportunidades, entrei no estabelecimento e perguntei: “Qualquer música?” E o homem: “Sim.”

Cantei uma música que estava tocando muito nas rádios, naquele final da década de 80. Lembro-me de que todos pararam de comer e me olhavam.

Quando acabei, eles aplaudiram, e o homem perguntou sorrindo o que eu queria: “Uma laranjinha e um bolinho de carne.”

E este foi meu primeiro cachê.